Redigido pela inteligência humana
Tema 2 - A construção histórica das ciências sociais, do século XVIII a 1945. Os clássicos fundadores (Karl Marx, Émile Durkhein e Max Weber). Debates e encruzilhadas do presente.
Karl Marx
Este tema serviu-me para clarificar ideias que tinha sobre os três fundadores das ciências sociais modernas. No final do seminário, comecei a ler o livro de referência de Karl Marx, chamado "Prefácio para a crítica da economia política". Ficou claro que o que estava em causa era o capitalismo, as classes sociais, a luta de classes e toda a estrutura económica, mas a pergunta que ficou no ar foi: como se reproduz e transforma uma sociedade capitalista? Ao ler algumas partes do livro e na tentativa de obter uma resposta à questão acima apresentada, a minha reflexão foi no neste sentido: O prefácio levou-me a ler Marx, K., & Engels, F. (1848/2019), percebi que tinha mais conteúdo para perceber a tal reprodução capitalista. Segundo os autores, a exposição percorre com clareza analítica os mecanismos pelos quais o próprio desenvolvimento do capitalismo cria as condições objetivas e subjetivas para a sua superação revolucionária. Trata-se, pois, de uma obra que extravasa a dimensão política imediata, para se afirmar como uma teoria social de largo alcance e é nessa dimensão que importa refletir.
Qual é o argumento?
Um dos argumentos nucleares reside na ideia de que o capitalismo, na sua fase inicial, convive com uma multiplicidade de classes sociais: restos da aristocracia feudal, artesãos, pequena burguesia, funcionários de burocracias públicas e privadas. Marx designa-as classes de transição, entendendo-as como formações sociais residuais que o avanço do modo de produção capitalista irá progressivamente dissolver. A força desta tese reside na sua coerência interna: não se trata de um processo voluntário ou politicamente induzido, mas de uma consequência estrutural da dinâmica concorrencial do mercado e das recorrentes crises de sobreprodução.
Uma segunda pergunta: Porque razão este argumento é importante nas Ciências da Educação?
O Manifesto permanece uma referência incontornável por várias razões. Em primeiro lugar, a sua análise da reprodução social: a ideia de que as instituições, incluindo a escola, servem os interesses das classes dominantes e antecipa os trabalhos posteriores de Althusser sobre os aparelhos ideológicos de Estado, de Bourdieu e Passeron sobre a reprodução cultural, ou de Bowles e Gintis sobre a correspondência entre estrutura escolar e estrutura produtiva. Em segundo lugar, a distinção entre consciência e inconsciência de classe coloca-nos questões essenciais sobre o papel da educação na emancipação ou na "domesticação" dos sujeitos sociais. Terceira pergunta: Pode a educação escolar, inserida numa estrutura social desigual, produzir sujeitos críticos e conscientes ou tende estruturalmente a reproduzir a ordem social existente? Esta tensão, enunciada nas entrelinhas do Manifesto, continua tão atual nos debates contemporâneos em pedagogia crítica, desde Freire a Giroux.
Em jeito de reflexão
Karl Marx é apresentado como um filósofo materialista (contraposto ao idealismo), para quem a estrutura fundamental da sociedade reside nas condições materiais de produção. As relações sociais estabelecem-se na produção e constituem a base material sobre a qual se edificam ideias, valores, instituições políticas, religiões e a própria escola. Utilizou a metáfora marxista da infraestrutura (forças produtivas e relações de produção) e superestrutura (instituições políticas, direito, ideologias, religião, formas de consciência social). O autor analisa as sociedades na sua evolução histórica, desde o comunismo primitivo até ao capitalismo moderno, identificando a contradição fundamental entre capital e trabalho como motor da transformação histórica. A história das sociedades é, para Marx, a história das lutas de classe, grupos com interesses distintos que constroem instituições para legitimar e unir os seus membros. As classes não são fixas ao longo da história, variando conforme as formações sociais (capitalismo, feudalismo, escravatura). As transformações sociais ocorrem através de conflitos estruturais entre classes ou subclasses. Marx constrói uma conceção materialista da história, baseada no materialismo de Ludwig Feuerbach e na dialética de Hegel que, no entanto, inverte substituindo a prevalência da ideia pela prevalência da matéria.
Émile Durkhein
Estamos perante um dos maiores pensadores das ciências sociais. A sua obra principal foi, sem dúvida, a "As regras do método sociológico". O seu objeto são os factos sociais, isto é, maneiras de agir, pensar e sentir exteriores e coercivas. Nesta obra, o foco é a coesão social, ordem e integração. Os três conceitos rumam ao funcionalismo. Émile Durkheim (1858-1917) é uma das figuras centrais do positivismo sociológico, corrente que procura afirmar a sociologia como ciência autónoma, equiparável em rigor às ciências naturais. Nessa perspetiva, Durkheim defende que as sociedades possuem uma consciência coletiva: modos de pensar, sentir e agir próprios das coletividades e não reduzíveis aos indivíduos que as compõem. Os indivíduos são, assim, reflexos dessa consciência coletiva: a sociedade é anterior e superior a cada pessoa, determinando as condições em que nascem e vivem. Para estudar os fatores sociais com objetividade, Durkheim propõe duas regras metodológicas cruciais. Primeira: tratar os factos sociais como coisas, afastando todas as pré-noções e juízos de valor, observando-os no mundo empírico exterior às mentes individuais. Segunda: recorrer à estatística como método privilegiado, pois permite diluir as individualidades no coletivo, identificar regularidades, taxas médias (que indicam estados de alma coletivos) e estabelecer correlações causais entre factos sociais.
O Suicídio (1897): o suicídio como facto social
Publicado em 1897, Le Suicide constitui a aplicação prática deste método. Durkheim parte do princípio de que o suicídio não pode ser explicado por causas individuais (psicologia, biologia, clima), mas sim como facto social. O que importa compreender não é o suicídio de cada indivíduo, mas a variação das taxas de suicídio entre grupos e sociedades diferentes. Define suicídio como "todo o caso de morte que resulta direta ou indiretamente de um acto positivo ou negativo praticado pela própria vítima, ato que a vítima sabia dever produzir este resultado". Para Durkheim, o suicídio é expressão de problemas estruturais das sociedades ao nível da integração social e da regulação social. A integração social traduz a capacidade da sociedade de fazer com que os indivíduos sintam que pertencem a uma coletividade mais vasta (família, grupo profissional, sociedade), partilhando sentimentos colectivos. A regulação social designa a capacidade da sociedade de controlar os indivíduos, adaptando os seus desejos e paixões ao lugar específico que ocupam na estrutura social, definindo expectativas legítimas de vida.
Em jeito de reflexão
Émile Durkheim é apresentado como pai do funcionalismo sociológico, na linha de Auguste Comte (que nos diz que as sociedades podem ser estudadas como a física). O argumento central é: a sociologia deve estudar os fatos sociais, modos de agir, pensar e sentir exteriores ao indivíduo, dotados de poder de coerção, que se lhe impõem (língua, normas jurídicas, instituições, costumes). Os fatos sociais devem ser tratados como coisas, estudados empírica e objetivamente, sem preconceitos, o que implica recusar o psicologismo. Durkheim explica o suicídio não por razões psicológicas, mas por razões sociais, desenvolvendo o conceito de anomia (falta de regras, crise social). A metáfora do funcionalismo é biológica: a sociedade é como um ser vivo, com partes que se complementam (cérebro, funções digestiva e tátil), devendo viver em equilíbrio. O papel das ciências sociais é estudar as sociedades para que mantenham esse equilíbrio. Durkheim preocupa-se com os conflitos apenas como expressão de que "alguma coisa não funciona bem", procurando resolvê-los imediatamente.
Max Weber
Max Weber foi um sociólogo Alemão, fundador da sociologia (tal como Marx e Durkhein), mas o seu foco foi na sociologia compreensiva. Uma das suas principais obras foi a "Ética protestante e o espírito do capitalismo", publicado em 1905. Max Weber foi um estudioso da economia e sociedade. Apresentou-nos conceitos como a ação social, dominação (tradicional, carismática, legal-racional), burocracia e racionalização. O seu argumento foi os sentidos, valores e interesses que orientam a ação. Max Weber (1864-1920) funda uma corrente sociológica que designa por sociologia compreensiva, a qual se distingue nitidamente do positivismo sociológico (representado, por exemplo, por Durkheim). Para Weber, as ciências sociais e as ciências naturais devem possuir métodos de investigação diferentes, pois estudam fenómenos de natureza distinta: ao passo que as ciências naturais estudam a causalidade exterior, a sociologia interessa-se pelas intenções dos atores e pelos sentidos que estes conferem às suas ações. Weber rejeita o determinismo dos fenómenos humanos. A investigação sociológica permite identificar padrões, mas estes não são "leis sociais" no sentido das leis naturais; as ciências sociais apenas fornecem probabilidades de os fenómenos ocorrerem de determinado modo. Da mesma forma, Weber recusa o estruturalismo, isto é, a ideia de que os indivíduos são mera consequência de estruturas sociais que os transcendem (estado, religião, direito). As estruturas sociais são, para Weber, representações estabilizadas durante algum tempo, mas sempre dinâmicas, dos modos como os indivíduos pensam e agem. Isto não significa que a ação individual seja livre de constrangimentos: as características das sociedades condicionam o pensamento e a ação, mas esta conserva sempre uma dose de liberdade.
Em jeito de reflexão
Max Weber é considerado o pai da sociologia compreensiva. O argumento maior é a interpretar o significado das ações humanas, reconstruindo os motivos e orientações subjetivas dos indivíduos. Desenvolveu o conceito metodológico de tipo ideal, construção analítica que enfatiza certos traços de um fenómeno social para permitir a comparação com a realidade empírica, sem ser uma fotografia, mas uma "caricatura" reconhecível (exemplo: tipos de liderança burocrática, participativa). O autor analisa a burocracia como organização racional do Estado moderno, com indivíduos especializados que representam o Estado (diferente das sociedades medievais onde quem cobrava impostos ficava com parte deles). A sua teoria da racionalização da modernidade descreve como as sociedades se tornam progressivamente mais racionais, sendo o capitalismo uma racionalização da sociedade. Os contributos de Weber são fundamentais para compreender as formas de dominação (tradição, carisma, racionalidade-lega) e como essa dominação se torna legítima. Analisa a estratificação social não apenas pelo lugar na produção (como Marx), mas através de três dimensões: classe, estatuto e poder.
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Referências bibliográficas
Durkheim, É. (1998). As regras do método sociológico (M. J. de Carvalho, Trad.). Editorial Presença. (Obra original publicada em 1895)
Durkheim, É. (2004). O suicídio e a anomia. In M. B. da Cruz (Org.), Teorias sociológicas: Os fundadores e os clássicos (Vol. 1, pp. 345–363). Fundação Calouste Gulbenkian. (Obra original publicada em 1897)
Durkheim, É. (1897). Le suicide: Étude de sociologie. F. Alcan.
Giddens, A. (2008). Sociologia (A. Figueiredo, A. P. D. Baltazar, C. L. da Silva, P. Matos, & V. Gil, Trads.; J. M. Sobral, Coord. & Rev.; 6.ª ed.). Fundação Calouste Gulbenkian. (Obra original publicada em 2001).
Marx, K. (2004). Prefácio ao «Para a crítica da economia política». In M. B. da Cruz (Org.), Teorias sociológicas: Os fundadores e os clássicos (Vol. 1, pp. 73–74). Fundação Calouste Gulbenkian. (Obra original publicada em 1859)
Marx, K., & Engels, F. (2019). Manifesto do partido comunista. Edições Avante. (Obra original publicada em 1848)
Wallerstein, I., Juma, C., Keller, E. F., Kocka, J., Lecourt, D., Mudimbe, V. Y., Miura, K., Arrow, K. J., Grubel, R., & Taylor, P. J. (1996). Para abrir as ciências sociais. Publicações Europa-América. https://catedraepistemologia.files.wordpress.com/2012/04/wallerstein-immanuel-abrir-la-ciencias-sociales.pdf
Weber, M. (2004). A ética protestante e o espírito do capitalismo. In M. B. da Cruz (Org.), Teorias sociológicas: Os fundadores e os clássicos (pp. 663-679). Fundação Calouste Gulbenkian. (Obra original publicada em 1905)