Redigido pela inteligência humana
Tema 3 - A Teoria Social e a Educação. Os alicerces metateóricos
No meu entender, este tema foi um dos temas que mais me marcou. Foi denso, reflexivo com muita informação, dispersa, mas muito precisa para cada um dos casos discutidos na sala de aulas. Quando li metateóritos, sabia que iríamos abordar vários autores e que este seria o momento para definir uma linha de teóricos que vão ao encontro do nosso projeto doutoral.
O seminário começou um o esclarecimento da apresentação dos trabalhos finais da UC, isto é, ficou estabelecido que os textos a escolher devem apresentar boa densidade teórica, permitindo aprofundar autores relevantes para a construção do quadro teórico. Livros coletivos, súmulas de congressos ou obras sem identidade teórica coerente foram desaconselhados.
Entre os autores sugeridos, destacam-se Hartmut Rosa, da teoria crítica, autor da "Teoria da Ressonância", cuja obra se encontra traduzida em inglês e disponível no site do CeiED, incluindo uma entrevista com Carlos Alberto Torres. Foi também mencionado Gert Biesta como autor contemporâneo relevante na área da educação.
Solicitou-se explicitamente aos estudantes africanos que indicassem referências não eurocêntricas ou americanocêntricas, de modo a enriquecer a bibliografia. Do mesmo modo, incentivou-se a inclusão de perspetivas femininas, mencionando Martha Nussbaum, autora de Not for Profit, que trabalha com o quadro teórico de Amartya Sen (teoria das capacidades).
As teorias da justiça foram anunciadas para abordagem através de três autores: John Rawls, Amartya Sen e Martha Nussbaum, para além das teorias das identidades subalternas e do colonialismo.
Respondendo a uma questão sobre inclusão das deficiências, foi citado Mel Ainscow e recordada uma conferência de Laborinho de Lúcio que ligou a inclusão aos direitos humanos. Foram ainda sugeridos Jacques Derrida e o seu conceito de hospitalidade, bem como Leonardo Boff (autor de Virtudes para um mundo novo possível e Grito da Terra, Grito dos Pobres), que cruza epistemologias ocidentais com as dos povos andinos.
O seminário continuou com a referência de alguns autores do tema anterior e aqui, agora, farei uma reflexão do que aprendi.
Karl Marx: Materialismo histórico e dialético
A exposição teórica iniciou-se com Karl Marx, partindo do texto "Prefácio à Crítica da Economia Política". Marx é apresentado como filósofo materialista (em contraste com o idealismo), para quem a estrutura fundamental da sociedade reside nas condições materiais de produção. As relações sociais estabelecem-se na produção e constituem a base material sobre a qual se edificam ideias, valores, instituições políticas, religiões e a própria escola. Foi utilizada a metáfora marxista da infraestrutura (forças produtivas e relações de produção) e da superestrutura (instituições políticas, direito, ideologias, religião, formas de consciência social). A escola é, nesta perspetiva, uma superestrutura. Marx analisa as sociedades na sua evolução histórica, desde o comunismo primitivo até ao capitalismo moderno, identificando a contradição fundamental entre capital e trabalho como motor da transformação histórica. A história das sociedades é, para Marx, a história das lutas de classe, grupos com interesses distintos que constroem instituições para legitimar e unir os seus membros. As classes não são fixas ao longo da história, variando conforme as formações sociais (capitalismo, feudalismo, escravatura). As transformações sociais ocorrem através de conflitos estruturais entre classes ou subclasses. Marx constrói uma conceção materialista da história, baseada no materialismo de Ludwig Feuerbach e na dialética de Hegel, que, no entanto, "põe de pé" (inverte), substituindo a prevalência da ideia pela prevalência da matéria. O materialismo histórico e o materialismo dialético são, assim, os pilares do pensamento marxista. A sua obra mais famosa, O Capital, em três volumes, é descrita como difícil de ler. Marx interveio na criação da Associação Internacional de Trabalhadores (Primeira Internacional).
Lenin e as interpretações do Marxismo
Sobre Lenin, afirmou-se que não acrescenta nada ao marxismo enquanto corrente filosófica. Lenin foi dirigente do Partido Social-Democrata Russo (depois bolchevique, depois Partido Comunista), tendo desenvolvido sobretudo uma teoria do Estado e uma teoria da conquista do poder, como o proletariado industrial, em aliança com o campesinato sem terra, pode conquistar o poder. A sua obra centra-se na vanguarda revolucionária, conceção que outros marxistas, como António Gramsci, não partilharam. Foi advertido que Marx foi interpretado de múltiplas formas, não só ao longo do tempo, mas no próprio tempo de vida do autor, distinguindo-se frequentemente um "jovem Marx" de um "Marx maduro". Alertou-se para a existência de versões mecanicistas (a escola como "espelho da sociedade", "esgoto do capitalismo", professores como "capatazes da burguesia") que pouco têm a ver com a complexidade do pensamento marxista, remetendo para Gramsci como exemplo diferente.
Émile Durkheim: Funcionalismo e facto social
A exposição transitou para Émile Durkheim, cujo livro de referência é As Regras do Método Sociológico. Durkheim é apresentado como pai do funcionalismo sociológico, na linha de Auguste Comte. A tese central é que a sociologia deve estudar os factos sociais, modos de agir, pensar e sentir exteriores ao indivíduo, dotados de poder de coerção, que se lhe impõem (língua, normas jurídicas, instituições, costumes). Os factos sociais devem ser tratados como coisas, estudados empírica e objetivamente, sem preconceitos, o que implica recusar o psicologismo. Durkheim explica o suicídio não por razões psicológicas, mas por razões sociais, desenvolvendo o conceito de anomia (falta de regras, crise social, ausência de nomos). A sua máxima é: "o social explica-se pelo social". A metáfora do funcionalismo é biológica: a sociedade é como um ser vivo, com partes que se complementam (cérebro, funções digestiva e tátil), devendo viver em equilíbrio. Quando não há equilíbrio, há "doença" (febre). O papel das ciências sociais é estudar as sociedades para que mantenham esse equilíbrio. Durkheim preocupa-se com os conflitos apenas como expressão de que "alguma coisa não funciona bem", procurando resolvê-los imediatamente. Durkheim foi catedrático de pedagogia na Sorbonne, atribuindo à escola duas grandes missões: socialização (transmissão de valores comuns, normas morais, disciplina, cooperação) e integração das novas gerações na divisão social do trabalho (formação profissional). Talcott Parsons desenvolveu esta ideia para quatro funções (AGIL: Adaptação, Goal-attainment, Integração, Latency), sendo a escola uma posição intermediária entre a família e a sociedade.
Max Weber: Sociologia compreensiva e tipo ideal
O último autor clássico abordado foi Max Weber, cientista social e filósofo alemão, mais novo que Marx, contemporâneo de Durkheim. Weber participou nas negociações alemãs do Tratado de Versalhes após a Primeira Guerra Mundial. É considerado o pai da sociologia compreensiva (verstehende Soziologie). O foco da sociologia weberiana é interpretar o significado das ações humanas, reconstruindo os motivos e orientações subjetivas dos indivíduos. Desenvolveu o conceito metodológico de tipo ideal (Idealtypus), construção analítica que enfatiza certos traços de um fenómeno social para permitir a comparação com a realidade empírica, sem ser uma fotografia, mas uma "caricatura" reconhecível (exemplo: tipos de liderança burocrática, participativa). Weber analisa a burocracia como organização racional do Estado moderno, com indivíduos especializados que representam o Estado (diferente das sociedades medievais onde quem cobrava impostos ficava com parte deles). A sua teoria da racionalização da modernidade descreve como as sociedades se tornam progressivamente mais racionais, sendo o capitalismo uma racionalização da sociedade. Os contributos de Weber são fundamentais para compreender as formas de dominação (tradição, carisma, racionalidade legal) e como essa dominação se torna legítima. Analisa a estratificação social não apenas pelo lugar na produção (como Marx), mas através de três dimensões: classe, estatuto (status) e poder. A escola participa ativamente na distribuição de poder, estatuto e oportunidades sociais através das credenciais (diplomas), base das teorias credencialistas. Distinguiu-se a meritocracia (ideia de que a escola seleciona pelo mérito, independentemente da origem, através de notas neutras) do funcionalismo, embora estas noções sejam frequentemente associadas. Weber é descrito como idealista (ao contrário do materialismo de Marx e Durkheim), defendendo o individualismo metodológico, parte dos sentidos dos atores, não da estrutura social.
Terminamos esta parte com um frase tão simples, mas tão cirúrgica quando começamos a incorporar pensamentos sociológicos nas Ciências da Educação : eu só posso transformar aquilo que eu compreendo.
Cheguei à conclusão de que, te todos os psicólogos, filósofos e sociólogos com quem temos vindo a trabalhar, revejo-me mais no pensamento de Émile Durkheim e Max Weber.
Tenho consciência de que são autores opostos, isto é, Durkheim vê o mundo pela coletividade, enquanto que Weber vê através do indivíduo. Para Durkheim o objeto de estudo é o facto social, partindo do principio a sociedade e recorre ao método científico das ciências naturais. Para Weber o objeto de estudo é a ação social, tendo como foco o individuo que constrói a sociedade e o seu método científico baseia-se na compreensão e interpretação dos sentidos das ações.
Termino com o registo dos principais conceitos abordados e lidos.
Materialismo histórico — conceção segundo a qual as condições materiais de produção constituem a base fundamental da sociedade
Materialismo dialético — método filosófico marxista baseado na dialética hegeliana "posta de pé"
Infraestrutura e superestrutura — metáfora da base económica (forças produtivas e relações de produção) e das instituições políticas, jurídicas e ideológicas
Luta de classes — motor da história segundo Marx
Contradição fundamental — tensão entre capital e trabalho como motor da transformação histórica
Comunismo primitivo — primeira forma de organização social segundo a teoria marxista
Vanguarda revolucionária — conceito leninista sobre o papel dirigente do partido na revolução
Hegemonia — conceito gramsciano de dominação cultural e ideológica
Fato social — modo de agir, pensar e sentir exterior ao indivíduo, dotado de poder de coerção
Anomia — falta de regras, crise social, ausência de nomos
Funcionalismo — perspetiva que vê a sociedade como um organismo vivo com partes complementares que devem viver em equilíbrio
"O social explica-se pelo social" — máxima metodológica de Durkheim
Socialização — primeira missão da escola: transmissão de valores comuns, normas morais, disciplina e cooperação
Integração na divisão social do trabalho — segunda missão da escola: formação profissional
AGIL — modelo de Parsons (Adaptação, Goal-attainment, Integração, Latency) para as quatro funções do sistema social
Sociologia compreensiva (verstehende Soziologie) — abordagem que visa interpretar o significado das ações humanas
Tipo ideal (Idealtypus) — construção analítica que enfatiza certos traços de um fenómeno social para permitir comparação com a realidade empírica
Burocracia — organização racional do Estado moderno com indivíduos especializados
Racionalização — processo pelo qual as sociedades se tornam progressivamente mais racionais
Formas de dominação legítima — tradição, carisma, racionalidade legal
Estratificação social — análise através de três dimensões: classe, estatuto (status) e poder
Meritocracia — ideia de que a escola seleciona pelo mérito através de notas neutras, independentemente da origem
Individualismo metodológico — abordagem que parte dos sentidos dos atores, não da estrutura social
Estruturalismo vs. individualismo metodológico — Marx e Durkheim são estruturalistas (da "floresta para a árvore"); Weber parte do indivíduo ("da árvore para a floresta")
Agência (agency) — protagonismo do sujeito, capacidade de ação transformadora
Teoria crítica — posição que procura síntese entre Marx (estrutura) e Weber (atores), valorizando reprodução e emancipação
Teoria da ressonância — conceito de Hartmut Rosa
Teoria das capacidades (capabilities) — quadro teórico de Amartya Sen e Martha Nussbaum sobre justiça e bem-estar
Reprodução cultural — conceito de Bourdieu
Capital cultural — conceito de Bourdieu
Habitus — conceito de Bourdieu
Códigos restrito e elaborado — conceitos de Bernstein
Pedagogia visível e invisível — conceitos de Bernstein
Global Commons — bem comum global da UNESCO (2015): Planet, Peace, People
Hospitalidade — conceito de Derrida aplicado à inclusão
Pedagogias novas vs. pedagogias tradicionais — contraposição entre abordagens que valorizam ambientes felizes e o gosto pela aprendizagem versus a escola como "ato de sacrifício"
Learning by doing — princípio pedagógico de Dewey
Escola como vida (não preparação para a vida) — tese deweyana
Pedagogia do oprimido — conceito de Paulo Freire
Conscientização — conceito freiriano
Na última parte do seminário, fomos desafiados a ler a obra de Carlos Alberto Torres e Theodore Mitchell. Os autores reconhecem que assistimos a mudanças drásticas na disciplina, com o surgimento de múltiplas abordagens teóricas e metodológicas que se afastam da tradição estabelecida, particularmente nos estudos sobre classe, raça, etnicidade e género. Estas novas perspetivas caracterizam-se por três elementos fundamentais: novas abordagens epistemológicas que se distinguem do positivismo e empirismo; o confronto com o dilema entre modernismo e pós-modernismo; e a necessidade de enfrentar os riscos e desafios que estes desenvolvimentos colocam à investigação educacional e ao futuro da educação pública. Os autores criticam o modelo positivista dominante no planeamento educacional, que procura regularidades universais comparáveis às ciências naturais. Em contraste, as ciências sociais enfrentam um princípio de ambiguidade, dada a natureza idiossincrática e aberta da vida social. As novas perspetivas rejeitam a separação rígida entre teoria e observação, valorizam estudos de caso e investigação orientada teoricamente, e adotam modelos científicos mais flexíveis, interdisciplinares e comparativos. A objetividade social não é considerada uma premissa da boa investigação, mas um processo agónico a construir através de iterações, múltiplas verificações e trocas intersubjetivas entre investigadores e populações estudadas. Foi possível entender que os autores discutem as implicações do pós-modernismo para a sociologia da educação, nomeadamente a chamada "morte das grandes narrativas" e a fragmentação do poder. Para autores como Foucault, a verdade depende de estratégias de poder, o que coloca problemas para a fundamentação da ação política e para a formulação de recomendações políticas em educação. Os autores alertam para o risco de um "radicalismo falso" que se envolve em transgressões constantes mas em última análise sem sentido, e que não desafia verdadeiramente as políticas fragmentadas de grupos de interesse divergentes. Entre os riscos identificados, os autores mencionam a tendência para descartar completamente a necessidade de dados empíricos tradicionais, recorrendo exclusivamente a relatos impressionistas que não transcendem os factos apresentados nas narrativas dos informantes. Quanto aos desafios, as novas perspetivas colocam no centro do seu trabalho normativo noções de justiça social, diversidade, multiculturalismo e a luta contra a segregação escolar. Defendem a educação pública como uma pré-condição para solidificar o pacto social democrático, embora reconhecendo que esta necessita de ser reinventada. Concluem citando Mike Rose, para ilustrar o espírito de esperança política combativa destas novas perspetivas: a crença na capacidade das pessoas, na igualdade de oportunidades e na ligação íntima entre educação de massas e uma sociedade livre.
Depois de ter lido e ouvido professores e investigadores mais experientes (mesmo sem ter recebido feedback dos meus 3 últimos planos, deixando-me à deriva neste mar imenso), depois de vários "cortes", no meu plano doutoral, registo aqui o meu título provisório. Fica a "inquietação" de colocar a figura do professor de TIC no 3.º CEB e Secundário ou se deixo (como tenho) fluir na própria tese.
Ser professor nas Regiões Ultraperiféricas Portuguesas: uma abordagem fenomenológico-hermenêutica (2020 – 2025)
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Referências bibliográficas
Morrow, R. A. & Torres, C. A. (1997). Teoria Social e Educação. Edições Afrontamento (cap. 1 e 2)