Redigido pela inteligência humana
Tema 4 - Desigualdades e ideologias
O seminário do tema 4 decorreu no dia 13 de abril de 2026. Iniciamos o debate sobre a ligação ao funcionalismo de Émile Durkheim e Talcott Parsons. Algo de desconhecia e aos poucos o "puzzle" do corpo teórico a adotar já começa a ganhar forma, mas ainda me falta decidir a entrada de Habermas e Bourdieu. À partida devo excluir Foucault, não pela pertinência do seu pensamento, mas aprendi que a verdade em ciência é construída num determinado contexto histórico de poder, para não falar que para se ler Foucault é preciso uma certa de "dose de filtragem". É certo que tudo isto incomoda-me, mas por agora não consigo integrar Foucault no trabalho que pretendo desenvolver. Já o tinha lido (em 2015), na tese do prof. Ramos do Ó (cf.imagem em anexo).
Depois abordamos Harmut Rosa e a sua teoria da ressonância(analisa estes tempos em que vivemos, isto é, instantâneos) e Giddens com o seu conceito de reflexividade. Talvez consiga integrar ambos na minha tese, mas ainda a necessitar de um fio condutor.
Realizado esta primeira parte do seminário, mais à base da reflexividade, avançamos para a segunda parte onde ficou claro que a educação não é um campo neutro. É, antes, um espaço de disputa onde se confrontam diferentes conceções da realidade, do conhecimento e da transformação social. A escolha de uma teoria implica, necessariamente, a adoção de pressupostos ontológicos, epistemológicos e metodológicos específicos. Não há neutralidade na investigação: cada posição metateórica orienta o nosso olhar como investigador, os problemas que colocamos e as soluções que imaginamos. A tarefa do cientista social e do educador consiste em tornar esses pressupostos explícitos, garantindo a coerência entre o que se assume que existe, como se pretende conhecê-lo e como se investiga.
Discutimos na segunda parte que a investigação em educação e nas ciências sociais não se reduz à recolha de dados ou à aplicação de técnicas; exige, antes de mais, uma clarificação dos pressupostos que sustentam o pensamento científico. A teoria social, entendida como um conjunto sistemático de conceitos, pressupostos e proposições destinado a explicar, interpretar e criticar a organização e a transformação das sociedades, opera em três níveis de análise: o empírico (os dados), o teórico (as explicações) e o metateórico (os pressupostos). É precisamente neste último nível que se situam os alicerces que condicionam toda a investigação, a epistemologia, ontologia e a metodologia, configuram os paradigmas em educação.
Abordamos a epistemologia, especialmente sobre o que é conhecimento válido?
A epistemologia, ramo da filosofia que estuda a natureza, os fundamentos, os limites e a validade do conhecimento, coloca questões centrais: o que é conhecimento? Como se distingue de opinião ou crença? Quais as suas fontes e como justificar que algo é verdadeiro? Em ciência, a verdade não é uma certeza absoluta, mas uma pretensão de validade baseada em critérios de justificação, evidência e coerência dentro de um determinado quadro epistemológico. Assim, o conhecimento científico é sempre situado, provisório e dependente de formas de validação. Distinguem-se várias conceções da verdade. A teoria da correspondência (Aristóteles) entende a verdade como adequação à realidade. A verificação limita a verdade ao que pode ser confirmado empiricamente. A falseabilidade (Karl Popper) define-a como aquilo que ainda não foi refutado. A perspetiva do paradigma (Thomas Kuhn) considera a verdade como aquilo que é aceite numa comunidade científica. O consenso racional (Jürgen Habermas) sustenta que a verdade é aquilo que resiste ao melhor argumento em condições de comunicação livre de coerção. Finalmente, a perspetiva do poder/saber (Michel Foucault) alerta para o facto de a verdade ser construída em contextos históricos de poder, onde o conhecimento funciona como instrumento de dominação.
Abordamos a ontologia, sobre a natureza da realidade social
A ontologia interroga-se sobre o que existe: a realidade social é objetiva ou construída? No campo da teoria social e da educação, emergem três posições. O realismo ontológico defende que a realidade social existe independentemente das perceções individuais, compreendendo estruturas, classes e instituições. O construtivismo (ou relativismo) argumenta que a realidade social é fabricada através de práticas, discursos e interações. As ontologias críticas, designadamente o realismo crítico, ocupam uma posição intermediária: existe uma realidade independente, mas o conhecimento que dela produzimos é sempre mediado, histórico e falível. A articulação entre ontologia (o que existe) e epistemologia (como conhecemos) é, pois, indissociável.
Abordamos a metodologia, isto é, como investigamos
A metodologia consiste no conjunto de princípios e estratégias que orientam o desenho da investigação e justificam a escolha dos métodos. Importa não confundir metodologia e reflexão sobre o porquê e o como geral da investigação com métodos, que são as técnicas concretas (entrevistas, questionários, análise estatística). Na teoria social, a metodologia depende diretamente das opções ontológicas e epistemológicas. O positivismo mobiliza metodologias experimentais e quantitativas, procurando leis gerais e relações causais. O interpretativismo recorre a metodologias qualitativas, orientadas para a compreensão dos significados e das ações sociais. As teorias críticas adoptam metodologias emancipatórias, orientando a investigação para a transformação social. Estas três dimensões : ontologia, epistemologia e metodologia, devem manter-se coerentes entre si, configurando paradigmas de investigação integrados.
Abordamos os paradigmas em Educação
No campo da educação, identificam-se três paradigmas centrais, cada um com uma conceção distinta da realidade, do conhecimento e da função da escola. O funcionalismo compreende a sociedade como um sistema composto por partes interdependentes, em que cada instituição, escola, família e Estado, desempenham uma função específica para a manutenção da ordem e da estabilidade social. A educação é, neste paradigma, um instrumento de integração: socializa os indivíduos, incutindo-lhes valores e normas necessários ao funcionamento coletivo. Os pressupostos centrais incluem a tendência da sociedade para o equilíbrio, a existência de funções necessárias nas instituições sociais e a explicação do comportamento pela sua contribuição para o sistema. Robert K. Merton distingue ainda entre funções manifestas (intencionais e reconhecidas) e funções latentes (não intencionais e frequentemente ocultas). As teorias críticas constituem um conjunto de abordagens que procuram compreender a sociedade e, simultaneamente, transformá-la. Partem do pressuposto de que a sociedade é marcada por relações estruturais de poder e desigualdade; que o conhecimento nunca é neutro, sendo historicamente situado e politicamente implicado; e que as ideologias podem ocultar formas de dominação. A ciência social assume, neste paradigma, uma função emancipatória. A educação é aqui entendida como reprodução social, reproduzindo desigualdades, mas também como possibilidade de transformação. O interpretativismo defende que a realidade social deve ser compreendida através dos significados que os indivíduos atribuem às suas ações e interações. A realidade social é socialmente construída; a ação humana é guiada por significados subjetivos. Como futuro investigador devo procurar a compreensão (Verstehen), não apenas a explicação causal. O conhecimento é contextual, situado e não generalizável de forma forte. Neste paradigma, a educação é uma construção social permanente, negociada entre os atores.
Abordamos os autores fundamentais
Os paradigmas traduzem-se em obras e autores de referência. Jürgen Habermas desenvolveu a teoria da racionalidade comunicativa e defende uma educação emancipatória, fundada no consenso racional e na comunicação livre de distorções. Pierre Bourdieu analisou as desigualdades através dos conceitos de habitus e capital cultural, demonstrando como a escola reproduz as hierarquias sociais. Anthony Giddens propôs a teoria da estruturação, superando a dicotomia entre agência e estrutura, e mostrando como os indivíduos reproduzem e transformam as estruturas sociais através da sua ação. Michel Foucault investigou as relações entre poder e saber, evidenciando os mecanismos de disciplina e controlo que operam nas instituições, incluindo a escola.
Termino este meu diário dizendo que desde o tema 1 até ao tema 4, tenho pensado de forma diferente. O que antes lia e cruza autores sobre um determinado tema, agora começo a "condensar" todos os autores que a mesma linha de pensamento, mas ainda me falta dominar algumas pensamento teóricos e conceitos. Por falar em teóricos e conceitos, fecho esta aula com o que registei sobre ambos, a saber:
Principais autores e teorias
Funcionalismo: Émile Durkheim, Talcott Parsons, Robert K. Merton.
Interpretativismo: Max Weber, Alfred Schütz, Peter Berger, Thomas Luckmann.
Teorias críticas / Marxismo: Karl Marx, Paulo Freire.
Teoria crítica frankfurtiana: Jürgen Habermas.
Sociologia da educação: Pierre Bourdieu.
Teoria da estruturação: Anthony Giddens.
Análise do poder e saber: Michel Foucault.
Epistemologia e ciência: Aristóteles, Karl Popper, Thomas Kuhn.
Lista de conceitos fundamentais
Teoria social; Níveis de análise (empírico, teórico, metateórico); Epistemologia; Ontologia; Metodologia; Coerência paradigmática.
Conceções da verdade: Correspondência; Verificação; Falseabilidade (Popper); Paradigma (Kuhn); Consenso racional (Habermas); Poder/saber (Foucault).
Posições ontológicas: Realismo ontológico; Construtivismo/Relativismo; Ontologias críticas (Realismo crítico).
Posições epistemológicas e metodológicas: Positivismo; Interpretativismo; Teorias críticas; Metodologias emancipatórias.
Paradigmas em educação: Funcionalismo; Ordem e estabilidade; Integração social; Funções manifestas; Funções latentes (Merton); Teorias críticas; Reprodução social; Transformação social; Ideologia; Dominação; Emancipação; Interpretativismo; Significados subjetivos; Verstehen; Construção social da realidade; Conhecimento contextual.
Autores-chave: Habitus; Capital cultural (Bourdieu); Racionalidade comunicativa (Habermas); Teoria da estruturação; Agência e estrutura (Giddens); "Disciplinamento"; Biopoder (Foucault).
Para terminar, sei que as regras de netiqueta não se deve escrever a vermelho, mas este é o meu espaço de trabalho, digital. Por isso, vou utilizar pela simples razão de estar a organizar a minha revisão da literatura científica (já sei que na investigação qualitativa não devemos utilizar o termo quadro ou corpo teórico) para a minha tese. Já tinha manifestado interesse em Durkheim e Weber, mas depois deste seminário, aprendi que tenho que separar o funcionalismo e o interpretativismo. Até ao momento, tenho seguinte:
Émile Durkheim -> Talcott Parsons -> Robert K. Merton (funcionalismo)
Max Weber -> Alfred Schütz -> Peter Berger -> Thomas Luckmann ( interpretativismo)
Aproveito a oportunidade para partilhar uma síntese sobre Parsons e o relatório da UNESCO sobre o "Repensar a Educação: Rumo a um bem comum mundial?" Neste relatório escolhi, apenas, a parte que mais se alinhava com a minha tese: Capítulo 4 - Educação como um bem comum?
Como tenho vindo a fazer, apresento a síntese com recurso à IA Gemini para verificação de erros de código e à plataforma W3Schools, para construção do código.
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Referências bibliográficas
Início
Piketty, T. (2020). Capital e Ideologia. Temas e Debates.
Continuação
Morrow, R. A. & Torres, C. A. (1997). Teoria Social e Educação. Edições Afrontamento (cap. 1 e 2)